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Eosinofilia: entenda o que a alteração no exame de sangue pode indicar

O aumento dos eosinófilos no sangue é detectado no hemograma e pode ter causas que vão de alergias a doenças hematológicas raras

Por Dr. Israel Bendit

Publicado em 19/06/2026, às 14:27 - Atualizado em 22/07/2026, às 08:32

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eosinofilia

eosinofilia é detectada no hemograma e indica que os eosinófilos – células do sistema imunológico – estão acima do normal no sangue. Na maioria das vezes, a causa é benigna. Mas quando os níveis são persistentemente altos ou não têm explicação aparente, é preciso investigar.

Eosinofilia: o que é? 

A eosinofilia é o aumento da contagem de eosinófilos no sangue acima de 500 células por microlitro. Os eosinófilos são células do sistema imunológico produzidas na medula óssea que atuam principalmente no combate a parasitas, na modulação de reações alérgicas e no controle de processos inflamatórios.  

Em condições normais, estão presentes em pequenas quantidades no sangue. Quando os níveis sobem, a eosinofilia é classificada conforme a intensidade: 

  • Leve: entre 500 e 1.500 células/µL; 
  • Moderada: entre 1.500 e 5.000 células/µL; 
  • Grave: acima de 5.000 células/µL – também chamada de hipereosinofilia.

Quando os eosinófilos estão elevados no sangue, a condição é chamada de eosinofilia sanguínea. Quando o aumento acontece nos tecidos de um órgão inflamado ou infectado, é chamada de eosinofilia tissular. As duas formas podem coexistir. 

Vale diferenciar a eosinofilia da síndrome hipereosinofílica (SHE): nessa condição, os eosinófilos estão persistentemente acima de 1.500 células/µL por mais de seis meses e causam danos a órgãos como o coração, os pulmões, o sistema nervoso e a pele.  

A SHE pode ser reativa – causada por doenças subjacentes – ou clonal, quando há uma mutação genética nas células da medula óssea responsável pela produção excessiva de eosinófilos. 

O que causa a eosinofilia? 

A causa mais comum da eosinofilia é a reação alérgica, especialmente em pessoas com asma, rinite alérgica, dermatite atópica e outras condições do espectro atópico.  

Infecções parasitárias – como toxocaríase, estrongiloidíase, esquistossomose e giardíase – também são causas frequentes, especialmente no Brasil. 

De forma gera, podemos organizar as principais causas por categoria: 

Causas reativas (mais comuns) 

  • Alergias: asma, rinite, urticária, eczema e alergia alimentar; 
  • Parasitoses: helmintos e protozoários – especialmente em regiões tropicais; 
  • Medicamentos: antibióticos, anti-inflamatórios, anticonvulsivantes e outros podem causar eosinofilia como reação adversa; 
  • Doenças autoimunes e inflamatórias: lúpus, artrite reumatoide, doença inflamatória intestinal e vasculites; 
  • Doenças da pele: pênfigo, dermatite herpetiforme e outras dermatoses inflamatórias; 
  • Infecções fúngicas: especialmente em pacientes imunodeprimidos; 
  • Doenças pulmonares: síndrome de Löffler, pneumonia eosinofílica e granulomatose eosinofílica com poliangiite (antiga síndrome de Churg-Strauss). 

Causas clonais (menos comuns, mas mais graves) 

Quando nenhuma causa reativa é identificada, a eosinofilia pode ter origem em uma mutação genética nas células da medula óssea, as chamadas neoplasias mieloproliferativas com eosinofilia.  

As mutações mais importantes envolvem os genes PDGFRAPDGFRBFGFR1 e BCR::ABL1. Essas formas são chamadas de eosinofilia clonal e exigem diagnóstico genético específico para definir o tratamento. 

policitemia vera e outras neoplasias mieloproliferativas também podem cursar com eosinofilia como parte do quadro hematológico mais amplo. 

Sintomas da eosinofilia 

A eosinofilia leve a moderada com causa reativa identificada frequentemente não causa sintomas próprios. O que o paciente sente são os sintomas da condição de base, como coceira, espirros, tosse ou diarreia. 

Quando os níveis são muito altos – especialmente na síndrome hipereosinofílica – os eosinófilos em excesso começam a se depositar nos tecidos e liberar substâncias tóxicas que causam danos a órgãos. Os sintomas variam conforme o órgão afetado: 

Coração 

O comprometimento cardíaco é a complicação mais grave da síndrome hipereosinofílica. Os eosinófilos depositados no miocárdio causam fibrose e podem levar a miocardite eosinofílica, formação de trombos intracardíacos e insuficiência cardíaca. Os sintomas incluem falta de ar, palpitações, inchaço nas pernas e dor no peito. 

Pulmões 

Tosse persistente, falta de ar, chiado e infiltrados pulmonares nos exames de imagem. Nos casos graves, pode evoluir para insuficiência respiratória. 

Pele 

Erupções cutâneas, urticária, angioedema e coceira intensa são comuns. A pele pode apresentar lesões avermelhadas, bolhas ou nódulos. 

Sistema nervoso 

Neuropatia periférica com formigamento e dormência nos membros, dificuldade para caminhar e, nos casos mais graves, comprometimento do sistema nervoso central com confusão mental e déficits neurológicos focais. 

Trato gastrointestinal 

Dor abdominal, diarreia, náuseas e perda de peso. A esofagite eosinofílica – inflamação do esôfago causada pelo acúmulo de eosinófilos – é uma condição específica com sintomas de disfagia e sensação de alimento preso.

Quando procurar por um médico? 

Procure avaliação médica se o hemograma mostrar eosinófilos elevados, mesmo sem sintomas evidentes. A eosinofilia assintomática pode ser o primeiro sinal de uma condição que precisa de investigação. 

Busque atendimento com mais urgência se a eosinofilia vier acompanhada de: 

  • Falta de ar, palpitações ou inchaço nas pernas – que podem indicar comprometimento cardíaco; 
  • Sintomas neurológicos como formigamento, dormência ou fraqueza nos membros; 
  • Febre persistente, perda de peso ou cansaço intenso sem causa aparente; 
  • Erupções cutâneas extensas ou que não melhoram com tratamento convencional; 
  • Eosinófilos acima de 1.500 células/µL em mais de um exame, com intervalo de semanas.

O especialista mais indicado depende da causa suspeita: o alergologista investiga causas alérgicas, o infectologista as parasitoses, o pneumologista o comprometimento pulmonar e o hematologista as formas clonais. Nos casos mais complexos, o acompanhamento é multidisciplinar. 

Exames que auxiliam no diagnóstico da Eosinofilia 

O diagnóstico da eosinofilia começa pelo hemograma completo, que identifica e quantifica os eosinófilos no sangue. A partir daí, a investigação segue conforme a suspeita clínica. 

Os principais exames utilizados são: 

  • Hemograma completo com diferencial: confirma a eosinofilia e avalia as demais séries celulares do sangue; 
  • Pesquisa de parasitas: exame parasitológico de fezes, sorologia para toxocaríase, estrongiloidíase, esquistossomose e outras parasitoses conforme o contexto clínico; 
  • IgE total: níveis elevados sugerem causa alérgica ou parasitária; 
  • IgE específica e testes alérgicos: para investigação de alergias alimentares e inalantes; 
  • Enzimas hepáticas, função renal e exames de urina: para avaliar o comprometimento de órgãos; 
  • Troponina e ecocardiograma: quando há suspeita de comprometimento cardíaco; 
  • Tomografia de tórax e abdômen: para avaliar linfonodos, baço e órgãos; 
  • Biópsia de medula óssea e imunofenotipagem: quando há suspeita de causa clonal.

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FISH – Painel para Eosinofilia – Sangue 

Quando a causa reativa da eosinofilia é descartada e há suspeita de origem clonal – ou seja, de uma mutação nas células da medula óssea -, o FISH Painel para Eosinofilia é o exame indicado para identificar as principais alterações genéticas envolvidas nesses distúrbios hematológicos. 

O exame avalia tanto deleções e duplicações quanto translocações envolvendo os principais genes relacionados às neoplasias mieloproliferativas com eosinofilia: 

  • FIP1L1/CHIC2/PDGFRA – Del. 4q: a alteração mais comum nas formas clonais de eosinofilia. Quando presente, indica boa resposta ao imatinibe – medicamento da classe dos inibidores de tirosina quinase; 
  • PDGFRB Break – 5q32: translocação associada a leucemia mielomonocítica crônica com eosinofilia; 
  • FGFR1 Break – 8p11: síndrome de rearranjo FGFR1, condição rara e agressiva; 
  • BCR::ABL1 – t(9;22): descarta ou confirma leucemia mieloide crônica como causa da eosinofilia; 
  • CBFB::MYH11 – Inv.16: inversão associada à leucemia mieloide aguda com eosinofilia.

A técnica de FISH – Hibridização in situ por fluorescência – é um método rápido e preciso para detectar alterações cromossômicas e gênicas em amostras frescas de sangue. É geralmente associado ao cariótipo convencional para uma avaliação genética mais completa. Não exige preparo prévio nem jejum. 

O resultado do FISH orienta o diagnóstico, o prognóstico e o planejamento terapêutico – especialmente a indicação de inibidores de tirosina quinase nos casos com rearranjo de PDGFRA ou PDGFRB, que têm resposta excelente a esses medicamentos. 

Tratamentos para a eosinofilia 

O tratamento da eosinofilia é sempre direcionado à causa identificada. E o objetivo é eliminar ou controlar o que está provocando o aumento dos eosinófilos. 

Eosinofilia reativa 

  • Parasitoses: antiparasitários específicos conforme o agente identificado – ivermectina, albendazol, praziquantel ou outros, conforme orientação do infectologista; 
  • Alergias: anti-histamínicos, corticoides inalatórios ou orais, imunoterapia alérgica – conforme o tipo e a gravidade da alergia; 
  • Medicamentos: suspensão do agente causador, quando identificado; 
  • Doenças inflamatórias: tratamento da condição de base com imunossupressores ou imunobiológicos, conforme o caso.

Síndrome hipereosinofílica e formas clonais 

  • Corticoides: prednisona é a primeira linha de tratamento para a síndrome hipereosinofílica não clonal e para os casos com comprometimento de órgãos. A resposta costuma ser rápida na redução dos eosinófilos; 
  • Inibidores de tirosina quinase: o imatinibe é o tratamento de escolha para os casos com rearranjo de PDGFRA (Del. 4q12) ou PDGFRB. A resposta é excelente – a maioria dos pacientes alcança remissão molecular completa; 
  • Interferon alfa: opção para casos refratários ou em que os corticoides não são tolerados; 
  • Mepolizumabe: anticorpo monoclonal anti-IL-5 aprovado para a síndrome hipereosinofílica. Reduz os níveis de eosinófilos ao bloquear a interleucina-5, o principal estímulo para a produção dessas células; 
  • Quimioterapia e transplante de células-tronco: reservados para as formas mais agressivas com rearranjo de FGFR1 ou transformação para leucemia aguda.

O acompanhamento hematológico regular é fundamental em todos os casos, tanto para monitorar a resposta ao tratamento quanto para identificar precocemente o comprometimento de órgãos. 

 

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