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Enxaqueca: a doença neurológica afeta 15% dos brasileiros

Doença incapacitante atinge mais da metade da população brasileira

Por Dr. Renato Hoffmann

Publicado em 31/07/2025, às 16:12 - Atualizado em 17/10/2025, às 15:29

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enxaqueca

De mudanças no estilo de vida a medicamentos modernos, veja as estratégias para controlar a doença, que tem uma forte predisposição genética

A enxaqueca não é apenas uma dor forte. É uma doença neurológica complexa que atinge mais de 30 milhões de pessoas no Brasil. A condição afeta três vezes mais mulheres do que homens, principalmente na fase mais produtiva da vida, entre os 30 e 50 anos. 

O impacto vai muito além do desconforto físico. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a enxaqueca como uma das doenças mais incapacitantes em todo o mundo. Durante uma crise, atividades simples como trabalhar, estudar ou mesmo estar em um ambiente iluminado podem se tornar impossíveis.

Enxaqueca: o que é? 

A enxaqueca é uma doença neurológica, crônica e hereditária que se manifesta em crises de dor de cabeça com características bem definidas. Diferente de uma dor comum, ela não é um sintoma de outro problema, mas a doença em si.

No quadro, há uma hipersensibilidade do cérebro, que reage de forma exagerada a determinados estímulos. Durante uma crise, uma cascata de eventos neuroquímicos no cérebro provoca inflamação e dilatação dos vasos sanguíneos. E isso causa a dor pulsátil tão característica. 

A predisposição para a enxaqueca é, em grande parte, genética. Se há casos na família, a sua chance de também desenvolver a doença aumenta bastante.  

Tipos de enxaqueca 

Os médicos a classificam a enxaqueca de duas maneiras principais: a primeira é pela presença de sintomas neurológicos, dividindo-a em enxaqueca com e sem aura. A segunda é pela frequência das crises, separando-a em episódica e crônica.  

Enxaqueca sem aura 

Este é o tipo mais comum. A principal característica é a crise de dor de cabeça latejante, geralmente de um lado só da cabeça, com intensidade de moderada a forte.

A dor piora com atividades físicas rotineiras, como caminhar ou subir escadas, e vem acompanhada de náuseas, vômitos ou sensibilidade à luz (fotofobia) e ao som (fonofobia). 

Enxaqueca com aura 

A enxaqueca com aura atinge cerca de um terço dos pacientes. A aura seriam os sintomas neurológicos transitórios que surgem antes ou durante a dor de cabeça. E eles se instalam de forma gradual e duram, em média, de 5 a 60 minutos.

A forma mais comum de aura é a visual. A pessoa pode ter visão turva, enxergar pontos cegos, flashes de luz, ou linhas em zigue-zague que brilham. Outros tipos de aura são o formigamento em um lado do corpo ou a dificuldade para falar. Logo após a aura, a crise de dor de cabeça costuma começar. 

Enxaqueca episódica 

Esta é a classificação mais frequente da doença. A enxaqueca é considerada episódica quando a pessoa apresenta crises de dor de cabeça em menos de 15 dias por mês. Embora as crises possam ser intensas e incapacitantes, eles são intercalados por períodos mais longos sem dor, que podem durar de semanas a meses. 

Enxaqueca crônica 

A frequência das crises define se a enxaqueca se tornou crônica. A enxaqueca crônica é diagnosticada quando a pessoa apresenta dor de cabeça por 15 ou mais dias por mês, por mais de três meses. Desses dias, pelo menos oito precisam ter as características de enxaqueca. É uma condição altamente debilitante, que exige um acompanhamento médico contínuo e tratamentos preventivos. 

Principais causas 

A causa primária da enxaqueca é uma predisposição genética. Isso faz com que o cérebro da pessoa seja mais sensível a certos fatores, conhecidos como gatilhos. Eles não causam a doença, mas podem iniciar uma crise em quem já tem essa sensibilidade.

Os gatilhos variam muito de pessoa para pessoa, mas alguns dos gatilhos mais frequentes são: 

  • Estresse; 
  • Dormir pouco, em excesso ou ter o sono irregular; 
  • Oscilações hormonais, no caso das mulheres; 
  • Longos períodos em jejum ou o consumo excessivo de queijos, chocolate, cafeína e álcool (principalmente vinho tinto); 
  • Luzes fortes ou piscantes, cheiros intensos e barulhos altos; 
  • Alterações bruscas na temperatura ou na pressão atmosférica. 

É possível prevenir a enxaqueca? 

Sim, é totalmente possível prevenir as crises de enxaqueca. E essa prevenção se baseia em mudanças no estilo de vida para evitar os gatilhos e, quando necessário, o uso de medicamentos profiláticos. 

Para isso, o paciente precisa identificar os gatilhos. Anotar o que comeu, como dormiu e como estava se sentindo antes de uma crise, ajuda muito nesse processo. Uma vez identificados, o ideal é evitar esses fatores. E, além disso, adotar uma rotina mais saudável e regrada, o que inclui:  

  • Ter horários fixos para dormir e acordar; 
  • Fazer refeições em intervalos regulares, sem pular nenhuma; 
  • Praticar atividade física regularmente; 
  • Aprender a gerenciar o estresse com técnicas de relaxamento ou terapia. 

 Para pessoas com crises muito frequentes ou incapacitantes, o médico pode indicar tratamentos preventivos com medicamentos. Eles são tomados diariamente para diminuir a frequência e a intensidade das dores. 

Sintomas da enxaqueca 

Os sintomas mais conhecidos da enxaqueca são a dor de cabeça pulsátil, a náusea e a sensibilidade à luz e ao som. Mas uma crise de enxaqueca é um evento complexo, que pode ser dividido em até quatro fases distintas: 

  • Pródromo: acontece horas ou até um ou dois dias antes da dor. Os sinais são sutis e incluem bocejos repetidos, desejo por certos alimentos, rigidez no pescoço, irritabilidade ou euforia. 
  • Aura: é a fase dos sintomas neurológicos reversíveis. A aura visual é a mais comum, mas também podem acontecer alterações de sensibilidade ou de linguagem. 
  • Dor de cabeça (fase de ataque): é a fase mais intensa e incapacitante. A dor dura de 4 a 72 horas se não for tratada. Ela é tipicamente unilateral, pulsátil e piora com o esforço. Náuseas e vômitos são muito comuns, assim como a extrema sensibilidade a qualquer estímulo de luz, som ou cheiro. 
  • Pósdromo (ou “ressaca”): depois que a dor principal passa, muitas pessoas se sentem exaustas, sem concentração e com o corpo dolorido por até 24 horas. 

Como diferenciar a enxaqueca de um dor de cabeça comum? 

A principal diferença está na intensidade da dor e nos sintomas que a acompanham. Uma dor de cabeça comum, como a cefaleia tensional, geralmente causa uma sensação de pressão ou aperto em ambos os lados da cabeça, é de intensidade leve a moderada e raramente impede a pessoa de realizar suas tarefas.  

A enxaqueca, por outro lado, é muito mais agressiva e complexa. De acordo com a Academia Brasileira de Neurologia, a dor da enxaqueca costuma ser pulsátil (latejante), de um lado só da cabeça e piorar com o movimento. Ela vem acompanhada por outros sintomas, como náuseas, vômitos e sensibilidade à luz e ao som, algo que não acontece na cefaleia tensional.

Se a dor de cabeça te obriga a parar tudo, deitar-se em um quarto escuro e silencioso, a chance de ser enxaqueca é grande. 

Quando procurar por um médico? 

Procure um neurologista se você tem dores de cabeça frequentes e que interferem na sua rotina. Mesmo que consiga aliviar a dor com analgésicos comuns, o uso excessivo desses medicamentos pode piorar o quadro a longo prazo.

Além disso, existem alguns sinais de alerta que exigem atenção médica imediata. Vá para um pronto-socorro se a sua dor de cabeça: 

  • Começar de forma súbita e explosiva (“a pior dor da sua vida”). 
  • Vier acompanhada de febre, rigidez na nuca, confusão mental ou convulsões. 
  • Aparecer após uma pancada na cabeça. 
  • For diferente do seu padrão habitual de dor ou piorar progressivamente. 

Exames que auxiliam no diagnóstico da enxaqueca 

O diagnóstico da enxaqueca é essencialmente clínico. Não existe um exame de sangue ou de imagem que “mostre” a enxaqueca. O especialista fará perguntas detalhadas sobre a frequência, duração, localização e tipo da dor, além dos sintomas associados. 

Em algumas situações, o médico pode solicitar exames de imagem, como a tomografia computadorizada ou a ressonância magnética. Mas isso para descartar outras possíveis causas para a dor de cabeça, como tumores, aneurismas ou outras lesões cerebrais.  

Para casos muito específicos, como a suspeita de enxaqueca hemiplégica familiar, um painel genético pode ser considerado.

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Formas de tratamento 

O tratamento da enxaqueca tem dois focos. O primeiro é tratar a crise aguda, ou seja, aliviar a dor e os sintomas quando ela já começou. O segundo é o tratamento profilático (preventivo) para reduzir a frequência e a intensidade de novas crises. 

Para o alívio imediato da dor, são prescritos medicamentos como analgésicos, anti-inflamatórios e os triptanos, que são uma classe de drogas específicas para enxaqueca. É muito importante usar esses remédios logo no início da crise para maior eficácia. 

Já o tratamento profilático é indicado para quem tem três ou mais crises por mês ou quando as crises são muito incapacitantes. Entre as opções, temos: 

  • Medicamentos de uso diário, como alguns antidepressivos e anticonvulsivantes. 
  • Aplicação de toxina botulínica, indicada para a enxaqueca crônica. 
  •  Terapias mais modernas com anticorpos monoclonais. Medicamentos como o erenumabe e o galcanezumabe, este último aprovado pela Anvisa, são injeções mensais que atuam bloqueando uma molécula envolvida no processo da dor. 

Além disso, estudos genéticos podem, no futuro, ajudar a entender como cada pessoa responde a diferentes remédios, personalizando ainda mais o tratamento.

 

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